Como ler a ficha de um violão
Ler a ficha de um violão é mais difícil do que deveria, e não por culpa de quem lê. A mesma palavra significa coisas diferentes em marcas diferentes, a unidade às vezes está errada no rótulo, e os três números que de fato decidem se o instrumento é tocável quase nunca aparecem.
Abrimos a página oficial de 13 marcas de violão de entrada vendidas no Brasil. Doze ainda têm site no ar. Dessas doze, 5 publicam o comprimento de escala em campo próprio, 5 dizem se o tampo do modelo mais barato é maciço ou laminado, 2 publicam o raio do braço e uma única publica a altura das cordas que sai de fábrica.
Este guia percorre a ficha campo a campo, explica o que cada um quer dizer, mostra onde as marcas se contradizem e ensina o que fazer quando o dado simplesmente não existe. A ausência é a informação mais importante deste nicho.
Passo a passo
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Comece pela palavra escala, que significa duas coisas
É a armadilha número um. Em Yamaha, Giannini e Fender, escala quer dizer o comprimento útil da corda, medido da pestana ao cavalete, e vem em milímetros: 650 mm, 643 mm. Em Di Giorgio, Seizi, Michael e Vogga, escala quer dizer a madeira do espelho do braço, e o campo traz coisas como Pau Ferro, Technical Wood ou Blackwood. Mesma palavra, dado completamente diferente. Antes de comparar dois violões, veja se os dois campos estão falando da mesma coisa.
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Confira a unidade, porque ela erra mais do que parece
A Di Giorgio rotula o campo como ESCALA (CM) e publica o valor 640, que são 640 mm, ou 64 cm. Quem copia o rótulo publica 640 cm, um violão de seis metros e meio. O distribuidor que publica as fichas da Takamine no Brasil escreve 64,2 cm e, entre parênteses, 25.5 polegadas, e os dois números não batem: 25,5 polegadas são 64,77 cm. Numa das fichas o typo vira 64,2 m. Quando os dois valores se contradizem, o que costuma bater é o valor em centímetro.
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Desconfie de campo que junta três dados
A Tagima publica o braço numa linha só, que mistura o material do espelho, o perfil do braço e a medida. E repete 25,5 polegadas em toda a linha de nylon, sendo que 25,5 polegadas é medida de violão de aço: clássico de tamanho inteiro tem 650 mm, ou 25,6 polegadas. Um campo assim não serve para comparar, porque não dá para saber qual parte é do modelo e qual parte veio colada do catálogo.
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Procure a palavra maciço, e leia o silêncio quando ela não estiver lá
Tampo maciço é uma peça inteira de madeira; laminado é madeira colada em camadas. Em violão de entrada, laminado é a regra, e isso é esperado. O que vale observar é quem diz. Cinco marcas das doze escrevem maciço ou laminado no modelo de entrada. Outras três sabem usar a palavra e escolhem não usá-la ali: a Yamaha escreve Solid Spruce no modelo caro e apenas Spruce no barato; a Giannini escreve Maple maciço para a escala e apenas Linden para o tampo do mesmo violão; a Takamine escreve Solid Cedar num modelo e apenas Mahogany no de entrada. Quando a marca demonstra que conhece a palavra e a omite, a leitura honesta é que não é maciço.
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Aceite que ação e raio não estarão lá
Ação é a altura das cordas em relação ao braço, e raio é a curvatura do espelho. São os dois números que mais decidem se um violão é confortável, e são os que quase ninguém publica. Ação: uma marca em doze, e ainda assim como escolha no carrinho, com três alturas em vez de uma especificação. Raio: duas em doze, e nenhuma delas brasileira. Isso significa que a ficha, mesmo completa, não responde à pergunta mais importante. Trate a regulagem com luthier como parte do custo, não como conserto.
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Verifique quem assina a ficha
Nem toda página oficial é do fabricante. As fichas da Strinberg são publicadas por uma distribuidora que nunca se declara dona da marca, e o endereço strinberg.com.br redireciona para um anúncio de venda de domínio. As fichas da Takamine no Brasil também vêm da distribuidora, e discordam do fabricante: o site da marca diz Mahogany onde o distribuidor diz Sapele Laminado, no mesmo modelo. Os dois estão certos à sua maneira, porque um usa o nome comercial e o outro o nome botânico, e só um diz que é laminado.
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Cheque se o modelo ainda existe
Muita ficha que aparece no buscador já não existe no site. Três modelos de uma marca respondem normalmente e começam a descrição com a palavra descontinuado, enquanto o distribuidor brasileiro segue vendendo um deles com ficha ativa. Outra marca perdeu do catálogo os dois modelos de violão mais citados em listas antigas, e as URLs devolvem erro em todos os idiomas. Antes de usar um número, confirme que a página que o publica é a página atual do modelo.
Dicas
- Compare sempre campo com campo, nunca rótulo com rótulo. Duas marcas podem chamar de escala coisas diferentes.
- Quando a ficha traz polegada e centímetro e os dois não batem, prefira o valor em centímetro e registre a contradição.
- Ficha idêntica em dois modelos diferentes é sinal de texto copiado. Há marca cujas fichas de dois modelos mudam só a palavra aço por nylon.
- Garantia é o campo mais desigual do nicho: vai de 90 dias a vitalícia, e a versão brasileira costuma ser o mínimo legal. Uma marca oferece garantia vitalícia limitada nos Estados Unidos e 3 meses no Brasil.
- Se o site oficial estiver fora do ar, com certificado vencido ou devolvendo página de erro com status de sucesso, registre isso em vez de recorrer ao anúncio da loja.
Erros comuns a evitar
- Tirar especificação do título do anúncio. Título de anúncio não é ficha, nem quando traz número.
- Somar dados de mercados diferentes. O mesmo modelo muda de madeira, de itens inclusos e principalmente de garantia entre Brasil, Estados Unidos e Europa.
- Tratar marca como fabricante. Várias marcas de instrumento de entrada vendidas aqui têm atividade registrada de atacado e nenhuma de fabricação.
- Copiar um erro do próprio fabricante. Uma ficha brasileira traduziu acabamento do braço como acabamento do traste, e outra duplicou a linha do encordoamento dentro do campo do escudo.
- Citar madeira de ficha antiga. Uma marca substituiu os nomes das espécies por uma descrição genérica, avisando que usa espécies variadas conforme a disponibilidade.
- Concluir que o site oficial saiu do ar porque a busca automatizada falhou. Vários sites de fabricante recusam acesso sem navegador e devolvem erro que parece página inexistente.
Perguntas frequentes
Qual dado eu devo procurar primeiro na ficha de um violão?
A largura da pestana e o comprimento de escala, nessa ordem, porque são os que mais mudam o conforto e os que ainda aparecem em parte das fichas. Depois, o tipo de encordoamento, que precisa ser lido no campo e não no nome do modelo.
Por que tão poucas marcas publicam a altura das cordas?
Porque a ação sai de fábrica com variação grande e muda com o transporte, a umidade e o tempo. Publicar um número cria obrigação. Uma única marca das doze levantadas enfrenta isso, e ainda assim transformando a altura em opção de compra, com três alturas.
Tampo laminado é ruim?
Não para começar, e é o que se espera na faixa de entrada. O problema não é o laminado, é o silêncio: metade das marcas não diz qual é o caso, inclusive marcas que usam a palavra maciço nos modelos mais caros.
Posso confiar na ficha publicada pelo distribuidor?
Com ressalva, e dizendo que é do distribuidor. Em um dos casos levantados, o distribuidor é nomeado pela própria fábrica e publica mais dado que ela, inclusive a palavra laminado que o fabricante omite. Em outro, o distribuidor publica as fichas de uma marca sem nunca se declarar titular dela.
O que fazer quando o dado não existe em ficha nenhuma?
Escrever que não existe. É o que fazemos aqui: quando o dado central de uma categoria não é publicado por quase ninguém, dizemos quantos publicam e ensinamos a decidir sem ele. Preencher a tabela com o que sobrou é pior do que deixar o campo vazio.
Conclusão
A ficha de um violão de entrada responde menos do que promete. Escala aparece em 5 das 12 marcas, tampo maciço ou laminado em 5, raio em 2 e ação em 1.
Isso não torna a ficha inútil. Torna a leitura mais exigente: conferir se a palavra escala é medida ou madeira, checar a unidade, desconfiar de campo que junta três dados, ver quem assina a página e confirmar que o modelo ainda está no catálogo.
E torna obrigatório assumir o que falta. Nenhum número de ficha vai dizer se aquele violão específico chega tocável na sua mão, porque o dado que responderia isso é justamente o que não se publica. Por isso a regulagem entra na conta desde o começo.
Redação Villa-Lobos
Time que escreve o Villa-Lobos. Partimos da ficha que o fabricante publica sobre cada instrumento e a comparamos com o relato de quem já comprou, para dizer a quem serve cada modelo e o que muda quando o músico passa do primeiro instrumento para o segundo.
Como a Redação trabalhaAtualizado em 21/set
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