Quando o ar-condicionado não gela, a causa quase sempre está em uma destas quatro frentes: sujeira nos filtros e na serpentina, aparelho pequeno demais para o ambiente, condensadora sem ventilação ou falha no circuito de refrigeração (gás, capacitor, compressor). A boa notícia é que as três primeiras você consegue checar sozinho, em ordem, sem abrir o aparelho.
O segredo é não pular etapas. Muita gente liga para o técnico achando que acabou o gás, quando o filtro estava coberto de poeira. Outros recarregam gás sem necessidade, e o problema volta. O roteiro abaixo vai do mais simples e barato ao mais caro.
Antes de tudo: o que é "gelar" de verdade
Um split funcionando bem não entrega ar gelado como o de um freezer. Ele retira calor do ambiente, e isso aparece na diferença entre o ar que entra e o ar que sai. O parâmetro prático é este:
- Ar que sai do aparelho: de 8 a 12 °C mais frio que o ar que entra pelo filtro.
- Ambiente: cai de forma gradual, geralmente em 15 a 30 minutos com portas e janelas fechadas.
- Compressor: liga, trabalha por longos períodos e só desliga quando chega à temperatura programada.
Para medir, use um termômetro de cozinha simples. Meça o ar que entra, perto do filtro, e o ar que sai, na grade de saída, depois de 15 minutos ligado em modo frio. Anote os dois valores. Eles vão guiar o resto do roteiro.
Passo 1: verifique o básico no controle
Parece óbvio, mas resolve mais casos do que se imagina.
- O modo está em frio (símbolo de floco de neve) e não em ventilação, desumidificação ou automático?
- A temperatura programada está pelo menos 4 a 5 graus abaixo da temperatura do ambiente?
- O temporizador ou o modo econômico está limitando o funcionamento?
- As pilhas do controle estão fracas, a ponto de enviar comandos incompletos?
Se algo estava errado aqui, ajuste, espere 15 minutos e meça de novo.
Passo 2: filtros e serpentina evaporadora
Filtro entupido é a causa número um de ar morno. Com a passagem de ar reduzida, a serpentina interna congela ou simplesmente não consegue trocar calor, e o fluxo na saída fica fraco.
Como limpar com segurança:
- Desligue o aparelho no controle e no disjuntor.
- Abra o painel frontal e retire os dois filtros de tela.
- Lave com água corrente e detergente neutro, sem escova dura.
- Deixe secar à sombra por completo antes de recolocar.
- Olhe a serpentina atrás dos filtros: se estiver coberta de pó ou com fina camada de gelo, há acúmulo ou fluxo de ar insuficiente.
Se aparecer gelo na serpentina ou na tubulação, desligue o aparelho no modo frio, ligue só a ventilação por 30 a 40 minutos para descongelar e depois teste de novo. Gelo recorrente, mesmo com filtro limpo, aponta para baixo nível de gás, e isso já é tarefa de técnico.
Passo 3: o ambiente e a potência (BTUs) do aparelho
Um aparelho correto para um quarto de 10 m² não dá conta de uma sala de 25 m² com sol da tarde. Nesse caso ele funciona sem parar e nunca chega à temperatura desejada, o que parece defeito, mas é subdimensionamento.
Pontos que sobrecarregam o split:
- Janelas grandes voltadas para o sol da tarde, sem cortina ou película.
- Cozinha integrada, que joga calor e vapor no mesmo ambiente.
- Pé-direito alto ou cômodo com laje exposta no último andar.
- Muitas pessoas e equipamentos (computadores, TVs grandes) no espaço.
- Porta ou janela entreaberta, ou fresta embaixo da porta.
Uma referência comum de mercado é partir de cerca de 600 BTU/h por metro quadrado e somar a carga de pessoas, equipamentos e insolação. É uma estimativa grosseira: para um cálculo confiável, o técnico considera orientação solar, andar e uso do ambiente.
Passo 4: a condensadora (unidade externa)
Este é o ponto que mais gente esquece. A condensadora libera para fora o calor retirado de dentro. Se ela não consegue fazer isso, o sistema inteiro perde rendimento.
Faça uma inspeção visual, sem abrir a máquina:
- O ventilador da unidade externa está girando quando o compressor trabalha?
- Há sol direto o dia inteiro sobre a unidade, sem proteção?
- A distância até a parede ou grade é de pelo menos 30 a 50 cm, sem obstáculo na frente?
- A grade e as aletas estão cobertas de poeira, folhas, teia ou gordura?
- A unidade está instalada em um nicho fechado, onde o ar quente recircula?
Para limpar a parte externa, desligue no disjuntor, passe um pincel macio nas aletas e use jato fraco de água de cima para baixo. Não amasse as aletas e não use lavadora de alta pressão. Se o ventilador externo não gira, ou gira só ajudado por empurrão, o capacitor é o suspeito, e a troca é serviço de técnico.
Tabela: sintoma, causa provável e quem resolve
| O que você observa | Causa provável | Quem resolve |
|---|---|---|
| Fluxo de ar fraco, saída morna, filtro sujo | Filtro e serpentina com sujeira | Você, com limpeza |
| Aparelho liga e desliga, ambiente nunca esfria | BTUs abaixo do necessário ou muito calor | Ajuste de uso ou troca por modelo maior |
| Diferença de temperatura pequena, condensadora quente e suja | Troca de calor externa prejudicada | Você (limpeza leve) ou técnico (limpeza completa) |
| Ventilador externo parado, compressor zunindo | Capacitor ou motor do ventilador | Técnico |
| Gelo na serpentina ou na tubulação | Pouco gás ou fluxo de ar insuficiente | Técnico |
| Ventilação funciona, mas o ar nunca esfria e o compressor não liga | Compressor, placa ou capacitor | Técnico |
E se o gás acabou?
Gás refrigerante não é combustível: ele circula em circuito fechado e não "gasta". Se falta, é porque há vazamento, normalmente em conexões, no flare ou na serpentina. Recarregar sem achar o vazamento resolve por semanas ou meses e o problema volta.
Os sinais mais comuns de pouco gás são gelo na tubulação fina ou na serpentina, ar que esfria pouco mesmo com tudo limpo e chiado ou assobio na tubulação. Mas atenção: ar-condicionado que não gela mesmo com gás recém-colocado também existe, e costuma ter outra origem. Capacitor fraco, compressor com rendimento baixo, sensor de temperatura descalibrado e condensadora obstruída produzem o mesmo sintoma.
Medir pressão, corrente do compressor e superaquecimento exige manômetro e pinça amperimétrica. Manusear gás refrigerante exige equipamento e formação, então esse é um limite que você não deve ultrapassar.
Quando chamar um técnico
Chame um profissional de refrigeração quando:
- O filtro está limpo, a condensadora está livre e a diferença de temperatura continua abaixo de uns 5 °C.
- Há gelo recorrente na serpentina ou na tubulação.
- O ventilador externo não gira ou o compressor faz zumbido sem partir.
- Você sente cheiro de queimado, o disjuntor desarma ou o aparelho dá choque leve na carcaça.
- Há marcas de óleo nas conexões da tubulação, sinal clássico de vazamento.
Na visita, vale perguntar ao técnico:
- Quais pressões e quais correntes ele mediu, e se estão dentro do esperado para o modelo.
- Se há vazamento e onde, antes de qualquer recarga de gás.
- Se a peça trocada é nova e qual é a garantia do serviço.
- Se o aparelho tem a capacidade adequada para o ambiente.
Peça o orçamento por escrito, com descrição do serviço e das peças. Valores variam por cidade, marca e complexidade, então desconfie de preço muito abaixo da média para recarga de gás, que costuma significar serviço incompleto.
Resumo do roteiro em ordem
- Controle: modo frio, temperatura e temporizador.
- Filtros e serpentina limpos e secos.
- Ambiente fechado e aparelho compatível com o tamanho do cômodo.
- Condensadora livre, limpa e com ventilador girando.
- Medição da diferença de temperatura (8 a 12 °C esperados).
- Só então, suspeita de gás, capacitor ou compressor, com técnico.
Seguindo essa ordem, você corrige os problemas baratos por conta própria e chega à visita técnica com um diagnóstico bem encaminhado, o que costuma encurtar o atendimento e evitar troca de peça desnecessária.